de Alex Girardi para o peixe.
Acabei de receber uma mensagem sua, dizendo como me ama tanto que nem sabe o que fazer. Faça. Só faça, sempre, e não deixe de fazer por nada no mundo. Explode aqui dentro milhões de pedacinhos dourados que entram no meu sangue e levam pra cada centímetro do meu corpo a sensação de que ele pertence tanto a mim quanto a você. O encaixe, dentro de uma bola de cristal, de duas peças complementares.
Voltando a Malibu, eu volto a muito tempo atrás, quando não havia nenhum sol e as cores eram sempre cinza e verde escuro. Havia muita fumaça e alguns muitos quadros pendurados na parede (como aquele texto da sala de onde me jogaram). De lá, eu só tenho algumas cicatrizes que são escondidas por meus sorrisos. Eu nunca sorri tanto, com tanta facilidade, sinceridade e paixão. Um dia, talvez, alguém invente a máquina do tempo, pra gente poder tempovoltar, tempomudar e tempoviver. Me esconder em um DelRey com você, correndo por uma rodovia vazia, pintando as unhas do meu pé enquanto você risca o chão da estrada com seu olhar de lobo e fogo. Algumas canções cantaroladas, alguns beijos no seu pescoço enquanto as cruzes dualistas balançam no espelho retrovisor. Uma parada, as janelas embaçadas por beijos que se prolongam por toda a noite.
Ainda bem que largamos os ovos de fada. Primeiro, não era justo comer os filhotinhos delas. Segundo, que prefiro milhões de vezes ser assim, me jogar todo dia de um prédio de 20 andares, e ser pego no ar com a maior leveza do mundo. E enquanto pular, sei que haverá a pausa antes de qualquer queda imaginada. Nadando, você vem voando.
Meus dedos agora batem nas tecladas enquanto escorrem deles algumas lágrimas salgadas, que entram no meio das letras e estão na ponta dos meus dedos. Experimentei um deles. Bem salgado. Minha água, que nunca mais deu de vazar por bobagem, ficando em maré segura todas as luas. Engraçado, os dois influenciados pelo satélite, que quando cheio enchem alguma coisa dentro de cada um, enquanto um vaza, outro volta com os pés sujos de terra após uma corrida pela floresta. O lobo sempre volta ao rio para matar sua sede.
Vamos sair dessa cidade no dia em que ela pegar fogo. Deixar pra trás o que agora temos ao lado. Sem querer faço planos e desfaço com medo de trazer má sorte. Mas que sorte é tão má o suficiente pra secar o que vive submerso? Nenhuma.
Fechando meus olhos os seus aparecem imediatamente na minha frente, um pequeno peso no estômago e a vontade de curvar a cabeça e sentir a boca quente de um peixe de fogo. Vontade de cozinhar. Vontade de ter um filho com você. Em trinta segundos o turbilhão de pensamentos vai de um prostituto mexicano, mãos lavando um pé, um fusca azul, uma escada e um allstar verde. Até uma imagem de uma horta numa casa de madeira, de manhã cedo, onde estaria o hortelã do seu chá.
Da horta, ele olhava a janela e via os dois olhos verdes ainda meio fechados. O peixe acabou de acordar. Olhava pelo frito meio embaçado e deu um sorriso de boca meio torta, como fazia desde Malibu. Sumiu, em dois segundos. O com bigode terminou de colher a hortelã. Sem chinelo, pisava na grama fria de uma manhã de agosto. Lavou os pés na mangueira da entrada de trás da casa, secou no tapete de entrada, e entrou na cozinha. Foi até a pia, e começou a lavar as ervas. Ouviu os passos de longe, apesar do loiro tentar esconder sua chegada. O calor era sentido a metros de distância. Não era auditivo, era tateável. Era arrepiante, os pelos da nuca já estavam em alerta. As mãos do loiro entrelaçaram na frente da barriga do de bigode. Um beijo na nuca, uma pressão maior com seu corpo.
Alí mesmo, na mesa da cozinha, fizeram amor. Sentaram na porta de fora da casa, tomaram um chá, vendo a névoa desaparecer devagarinho, enquanto um sol se abria no meio de nuvens cinzas carregadas.
- Vai chover, disse o loiro.
- Que sempre chova. Pra cair, limpar e manter tudo fresco.
- Mas a gente ia pra praia…
- Sempre tem um sol na minha praia.
Dois reis sentados com xícaras de chá em um novo castelo, debaixo da água.
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